
Miquéias foi um profeta judeu que desenvolveu seu ministério no período dos reis Jotão, Acaz e Ezequias. Diferente de Isaías, não era de uma família nobre. Foi contemporâneo dos profetas: Izaías e Ozéias. Seu livro se encontra na seção da Bíblia Hebraica denominada “Profetas Menores”. No capítulo 6:8 o profeta nos brinda com uma importante lição sobre relacionamentos. O texto diz:
Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e Andes humildemente com o teu Deus.
Podemos observar dois aspectos relevantes no texto.
1. “Ele te declarou...”: Miquéias não estava por apresentar algo novo, uma nova luz, ou algo parecido. Desde que o casal no Édem desobedeceu a Deus, uma nova ordem foi criada na relação entre eles. Passou a existir uma separação entre Deus e o homem, que resultou em uma “desconfiguração” dos seres humano. O homem deixou de ter a imagem do criador. Porém, logo depois da queda, Deus revelou a Adão o plano preparado para lidar com a situação. Deus iria restaurar esta imagem, e com isso, trazer suas criaturas de volta a seus braços. Esta esperança foi transmitida por Adão entre as gerações seguintes. Isso foi confirmado pelo Espírito Santo (Romanos 8:16), e foi ampliado pela revelação dos profetas durante anos. O problema é que o povo foi com os anos perdendo o verdadeiro sentido desta revelação. Para os Hebreus que estavam sendo retirados do Egito, influenciados pela cultura deste pais dominante, Deus faz uma aliança, ordenando (Gálatas 3:19) os princípios que eles deveriam seguir para que este processo de restauração fosse seguindo, e estes princípios podem ser vistos no decálogo (Êxodo 20).
2. O problema que surge então, é que para obedecer estes princípios, o povo começa a criar regras tão abrangentes que tornou difícil a guarda destes princípios. O sábado é um exemplo disto. Foram criados 613 mandamentos para uma correta observância do dia de repouso. Destes 613, 365 eram proibições e 248 sugestões de coisas que poderiam fazer. Diante deste emaranhado de temas, Davi, tentando sintetizar a questão, resume esta quantidade em apenas 11 (Salmo 15). O mesmo fez Isaías (33:15) resumindo para 6. Porém, segundo os próprios judeus, quem consegue realizar com êxito esta proesa é o profeta Miquéias. E isto ele consegue no verso que estudamos.
Uma rápido estudo das palavras importantes do verso pode nos ajudar a entender os conceitos do profeta. O profeta entende que Deus já tinha revelado ao homem o que é “BOM” (Heb. TÔB). E esta palavra indica que o profeta estava pensando no sentido mais amplo da palavra.
a. A palavra estava relacionada com o bem prático, econômico ou material;
b. Também indicava bondade abstrata como beleza e prazer;
c. Valor qualitativo, que era usado quando se pensava na pureza do ouro, dos óleos aromáticos da mais alta qualidade e da nobreza do caráter;
d. Da bondade moral;
e. Do bem filosófico.
O bem que o profeta pensava abrangia todos os aspectos da vida, ou seja, Deus revelou ao homem o que ele precisava fazer, porém o homem, se cercou de tantas cerimônias, tradições e costumes, e tudo isto se misturou com a revelação divina de tal maneira, que os homens correm o perigo de achar que estas cerimônias, e simplesmente elas, são responsáveis pela restauração da imagem de Deus no homem. Estas cerimônias não tem valor sem a verdadeira piedade. Práticas externas não podem substituir uma santificação alcançada no contato com o Espírito Santo.
O profeta continua apresentando as formas de seguirmos de acordo com as revelações de Deus, de uma forma efetiva.
PRATICANDO A JUSTIÇA (Heb. MISHPAT): manter a honestidade em todas as suas ações. praticar seria igual a ordenar a vida de acordo com a vontade de Deus.
AMAR A MISERICÓRDIA (Heb. HESED): esta é a palavra mais importante quando pensamos em amor. Uma disposição mental em fazer o bem acompanhada de ações. O termo aparece 250 vezes na Bíblia Hebraica.
ANDES HUMILDEMENTE (Heb.TSANA): desenvolver um correto relacionamento com o Senhor, sabendo que Ele sabe o que é o melhor para cada um. Ele está no controle.
O profeta vai bem fundo no ponto que seria o verdadeiro sentido da religião: desenvolver uma íntima relação com Deus. As cerimônias e tradições só contribuem, se elas desenvolverem este relacionamento. O profeta está totalmente ciente de seu papel como revelador da vontade de Deus. As duas tábuas dos mandamentos são a prova da contextualização da mensagem. Praticar a justiça e amar a misericórdia, são fatores que irão influenciar diretamente os relacionamentos entre o homem e seu semelhante (como diz a segunda tábua da lei). Já o terceiro ponto, andar humildemente diante de Deus tem relação com a primeira tábua (com os 4 primeiros mandamentos), e podemos destacar o verbo andar que dá uma idéia que isto é uma questão diária e constante. Ande e continue andando.
Deus quer restaurar a sua criação, dia após dia, santificar seus filhos os preparando para viver com Ele. Isso tem a ver com um processo interno de transformação. Contemplação e prática. É um desafio para nós, permitirmos este trabalho. Isto tem a ver com disciplina e consagração.
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